Trump congela de novo parte das tarifas contra México e Canadá: o que está em jogo na guerra comercial

O presidente americano, Donald Trump, anunciou nesta quinta-feira (6/3) que os EUA suspenderão temporariamente a maioria das tarifas que haviam imposto ao México e ao Canadá dois dias antes.

Com a decisão, ficam sem efeito no momento a maioria das novas taxas de 25% aplicadas sobre produtos mexicanos e canadenses.

O congelamento, que expira em 2 de abril, foi anunciado pelo presidente americano em sua plataforma Truth Social após uma conversa dele com a mandatária mexicana, Claudia Sheinbaum.

“Após conversar com a presidente Claudia Sheinbaum do México, concordei que o México não será obrigado a pagar tarifas sobre qualquer item abarcado pelo tratado USMCA”, escreveu Trump na rede social Truth. Depois, a Casa Branca adicionou que o Canadá também seria beneficiado pelo acordo.

O tratado USMCA – acrônimo com as iniciais em inglês de Estados Unidos, México e Canadá – é uma atualização do Nafta (acordo de livre comércio da América do Norte), que vigorou entre 1994 e 2018.

Nesta quarta-feira (5/3), Trump já havia recuado parcialmente e oferecido isenção, por um mês, para empresas automotivas que importem ou exportem do Canadá e do México. O recuo é uma resposta ao pedido feito diretamente ao presidente por três montadoras: General Motors, Stelantis e Ford.

Apesar dos recuos e ajustes, Trump segue fazendo da defesa das novas tarifas sobre produtos importados uma das bandeiras de seu governo. O tópico foi tema de seu discurso ao Congresso americano na noite de terça-feira (04/03).

Na fala, Trump citou nominalmente o Brasil como possível alvo de novas tarifas ao dizer que o país “sempre usou tarifas contra os EUA”.

Os primeiros alvos brasileiros serão o etanol, taxado em 18% a partir do dia 2 de abril, e o aço e o alumínio, com tarifas de 25% a partir de 12 de março. Nesta quinta-feira, ele repetiu que não haverá exceção para tributos contra aço e alumínio.

É o que Trump chama de tarifas recíprocas, ou seja, os EUA cobrarão a mesma taxa das que são alvo em todos os produtos a partir do mês que vem.

Além de Canadá e México, o governo Trump já subiu para 20% as tarifas contra a China – o governos chinês e canadense responderam subindo seus impostos sobre importações sobre muitos produtos dos EUA.

Trump tem dito ter como alvo o Canadá e o México porque ambos os países estão permitindo a entrada de um grande número de imigrantes ilegais nos EUA.

Também afirmou que as duas nações e a China permitem que grandes quantidades de fentanil produzido ilegalmente sejam enviadas para os EUA.

Economistas alertam que essas tarifas podem prejudicar empresas e consumidores nos EUA e no resto do mundo.

Durante o discurso no Congresso, Trump admitiu que tarifas sobre bens de Canadá, México e China podem provocar “perturbações” e que os produtores agrícolas americanos podem sentir “um período de indigestão”.

Mas nada sugere que ele esteja repensando a política de guerra comercial que vem abalando os mercados financeiros nos últimos dias. Na verdade, a maior teste da política começará em abril, quando ele prometeu impor mais tarifas recíprocas sobre todos os parceiros comerciais dos EUA.

O que são tarifas?

Tarifas são impostos sobre bens importados.

A taxa representa uma proporção do preço de um determinado item e é cobrada da empresa que o importa, em vez do exportador.

Então, se uma empresa está importando carros por, por exemplo, a R$ 50 mil cada e há uma tarifa de 25%, ela pagará uma taxa de R$ 12.500 em cada carro.

Se os importadores dos EUA repassassem o custo das tarifas aumentando os preços de varejo, os consumidores dos EUA arcariam com o fardo econômico.

Por que Trump é a favor de tarifas?

Donald Trump disse muitas vezes que as tarifas protegem e criam empregos nos EUA. Ele as vê como uma forma de fazer a economia dos EUA crescer e aumentar as receitas fiscais.

“Sob meu plano, os trabalhadores americanos não ficarão mais preocupados em perder seus empregos para nações estrangeiras”, disse ele. “Em vez disso, as nações estrangeiras ficarão preocupadas em perder seus empregos para a América.”

Trump também disse que as tarifas sobre o aço são importantes para a segurança nacional dos EUA porque incentivam os produtores de aço nacionais a aumentar sua capacidade de produção. Ele quer que os EUA sejam capazes de produzir o suficiente para produzir armas em tempos de guerra sem depender de importações.

Ele chamou as tarifas de “a sustentação da nossa base industrial de Defesa”.

Trump também defende as tarifas como uma forma de suprimir as vendas de produtos importados e promover as vendas de produtos nacionais. Esse foi seu motivo para impor tarifas no passado à UE, por exemplo.

“Eles não pegam nossos carros, não pegam nossos produtos agrícolas, não pegam quase nada e nós pegamos tudo deles”, disse Trump. “Milhões de carros, quantidades tremendas de alimentos e produtos agrícolas.”

Ele sugeriu que outras tarifas poderiam se concentrar em produtos farmacêuticos e chips de computador, dizendo: “É hora de nossas grandes indústrias voltarem para a América… esta é a primeira de muitas”, acrescentou.

Quais tarifas Trump impôs em seu primeiro mandato como presidente?

Donald Trump impôs tarifas sobre aço importado para proteger produtores dos EUA

Em 2018, Trump impôs tarifas de até 50% sobre máquinas de lavar e painéis solares importados. O governo dos EUA disse que os fabricantes americanos em ambos os setores estavam enfrentando concorrência desleal do exterior.

No mesmo ano, ele também colocou tarifas de 25% sobre aço importado e 10% sobre alumínio importado, incluindo para o México e Canadá, que eram parceiros dos EUA no Acordo de Livre Comércio da América do Norte, ou Nafta.

Mais tarde, ele retirou as tarifas quando as nações assinaram o Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA), que substituiu o Nafta em 2020 — um acordo comercial mais favorável aos EUA.

As tarifas sobre a União Europeia prejudicaram particularmente a Alemanha e a Holanda, porque os dois países exportam muito aço para os EUA. A UE como um grupo retaliou com tarifas sobre exportações dos EUA, como jeans, uísque bourbon e motocicletas.

Trump também colocou tarifas sobre mais de US$ 360 bilhões em produtos chineses, variando de carne a instrumentos musicais. A China retaliou impondo tarifas sobre mais de US$ 110 bilhões em produtos dos EUA.

Sob o presidente Joe Biden, as tarifas sobre a China foram mantidas em sua maioria e novas foram impostas a produtos como veículos elétricos.

Qual foi o impacto das tarifas do primeiro mandato de Trump em outros países?

As tarifas de Trump diminuíram a quantidade que os EUA importavam de alguns países, mas aumentaram a quantidade que importam de outros.

Antes de 2018, os produtos chineses representavam 22% do total das importações dos EUA. Em 2024, eles representavam apenas 13,5%, de acordo com o Departamento do Censo dos Estados Unidos.

O México ultrapassou a China para se tornar o exportador número um para os EUA até 2023. Agora, exporta US$ 476 bilhões em produtos para os EUA, em comparação com US$ 427 bilhões em produtos exportados da China.

Isso ocorre em parte porque muitas empresas — especialmente fabricantes de automóveis — mudaram a produção para o México para aproveitar seu acordo de livre comércio com os EUA e os baixos custos de produção lá.

Agora, o governo Trump afirmou, após recuar por um mês nas tarifas para o setor, que as montadoras foram alertadas de que, se não querem pagar tarifas, devem mudar sua produção inteiramente para os EUA quanto antes.

O México se tornou um centro mundial de produção de automóveis, graças ao seu acordo de livre comércio com os EUA

Os países do leste da Ásia também viram um aumento nas exportações para os EUA, graças às tarifas altas de Trump sobre a China.

Isso ocorreu em parte porque seus produtos se tornaram mais baratos do que os produtos chineses para os consumidores dos EUA e em parte porque muitas empresas chinesas se mudaram para esses países para evitar as tarifas dos EUA.

De acordo com dados do Representante Comercial dos EUA, os países pertencentes ao bloco comercial da ASEAN — como Indonésia, Filipinas, Tailândia e Vietnã — exportaram US$ 158 bilhões em produtos para os EUA em 2016, mas exportaram quase US$ 336 bilhões em produtos para os EUA em 2022.

Os países do leste da Ásia também viram um aumento nas exportações para os EUA

“O país mais atingido pelas tarifas de 2018 foi a China”, diz Nicolo Tamberi, economista da Universidade de Sussex, no Reino Unido.

“Acho que o Vietnã foi provavelmente um dos maiores vencedores dessa rodada de tarifas”, disse ele.

Para os EUA, as tarifas impulsionaram a produção de aço e alumínio, de acordo com o Peterson Institute for International Economics, mas também aumentaram os preços dos metais. Segundo os dados do centro de pesquisas, isso resultou na perda de milhares de empregos em outras indústrias de manufatura.

O Peterson Institute afirma ainda que as medidas tarifárias de Trump aumentaram os preços em todos os setores, deixando os consumidores dos EUA em pior situação.

Quais tarifas os EUA impuseram e quais tarifas podem impor?

Trump disse que quer tarifas sobre o México e o Canadá para fazê-los conter o fluxo de migrantes ilegais para os EUA, e a droga fentanil

O plano dos EUA é impor tarifas de 25% sobre produtos do Canadá e do México. As importações do setor de energia do Canadá, como petróleo, receberam uma tarifa de 10%.

Todas essas tarifas deveriam entrar em vigor inicialmente em 4 de fevereiro, mas foram adiadas duas vezes. Agora, os produtos que fazem parte do acordo de livre comércio entre os países devem ficar isentos até o começo de abril.

Antes, o governo Trump já havia adiado por mais um mês as tarifas específicas para o setor automotivo do México e Canadá.

Os EUA impuseram uma tarifa de 10% sobre as importações chinesas, além de uma tarifa de 10% já em vigor desde o início de fevereiro.

Trump disse que imporia as tarifas em resposta ao que ele alega ser o fluxo inaceitável de ingredientes para fazer a droga ilegal fentanil e imigrantes ilegais para os EUA.

O Canadá retaliou declarando tarifas de 25% sobre US$ 150 bilhões em produtos dos EUA. O México diz que anunciará suas contramedidas mais tarde e escolheu negociar com Trump.

A China declarou tarifas de 10% a 15% sobre as importações de alimentos dos EUA, como trigo, milho, carne bovina e soja.

Anteriormente, Trump impôs impostos sobre importações de carvão, petróleo, gás, máquinas agrícolas e carros de grande porte dos EUA, e proibiu exportações para os EUA de muitos elementos de terras raras necessários para a fabricação de equipamentos eletrônicos e militares.

Em 12 de março, os EUA devem começar a impor uma tarifa de 25% sobre importações de aço e alumínio de qualquer lugar do mundo.

Isso afetará os principais países produtores de aço, como Brasil, Canadá, China, Alemanha, México, Holanda, Coreia do Sul e Vietnã, e grandes produtores de alumínio, como Emirados Árabes Unidos e Bahrein.

Trump negou sugestões de que as tarifas aumentarão o preço do aço nos EUA. “No final das contas, será mais barato”, disse ele.

Ele disse que os EUA imporão tarifas sobre produtos agrícolas estrangeiros e importações de carros estrangeiros em 2 de abril “na vizinhança de 25%”,

Como as tarifas recentes podem prejudicar o Canadá e o México?

Tarifas sobre as exportações para os EUA podem aumentar o desemprego no México

De acordo com o professor Stephen Millard, do think tank britânico National Institute of Economic and Social Research, o Canadá e o México sofreriam muito com tarifas gerais.

Ambos os países são altamente dependentes dos EUA. O México envia 83% de todos os seus produtos para os EUA e o Canadá envia 76% de todas as suas exportações.

“O Canadá vende grandes quantidades de petróleo e maquinário para os EUA”, disse Millard, “e uma tarifa de 25% poderia encolher seu PIB em 7,5% ao longo de cinco anos.”

“As tarifas poderiam cortar o PIB do México em 12,5% ao longo de um período de cinco anos. Isso seria um grande golpe.”

Lila Abed do Instituto do México no think tank americano Wilson Centre diz que as tarifas dos EUA seriam “devastadoras” para os trabalhadores mexicanos.

“Aproximadamente cinco milhões de empregos nos EUA dependem do comércio EUA-México… e um estudo recente sugere que cerca de 14,6 milhões de empregos no México dependem do comércio com seus parceiros norte-americanos”, disse ela.

Os índices das bolsas de valores nos EUA e no resto do mundo caíram com a notícia de que as novas tarifas foram introduzidas, refletindo os temores dos investidores de que elas prejudicariam o comércio global e a economia global.

Andrew Wilson, da Câmara de Comércio Internacional, disse: “O que estamos vendo é o maior aumento efetivo nas tarifas dos EUA desde a década de 1940 — com graves riscos econômicos associados a isso.”

Ella Hoxha da empresa financeira Newton Investment Management, sediada no Reino Unido, alertou sobre “aumentos nos preços, pois as empresas repassam alguns desses preços ao consumidor.”

Como o Brasil pode ser afetado?

Aço brasileiro deve ser um dos mais afetados por medidas anunciadas por Trump

O Brasil será um dos países mais atingidos pelas tarifas sobre as importações de aço e alumínio anunciadas por Trump — que começam a valer em 12 de março.

Os EUA são, de longe, o maior mercado para produtos siderúrgicos do Brasil. O Brasil exporta para os EUA 12 vezes mais do que para a Europa e 6 vezes mais do que para a América Latina.

Já em relação ao alumínio, outro produto alvo de tarifas anunciadas por Trump, o Brasil é o 14º maior fornecedor para os EUA, segundo dados do departamento de Comércio dos EUA.

O próprio Brasil também pratica protecionismo no setor do aço. Em outubro, após mais de um ano de análise, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) elevou para 25% o imposto de importação para 11 tipos de produtos de ferro e de aço. Antes disso, esses produtos pagavam de 10,8% a 14% para entrarem no país.

O pedido foi feito pelo Sindicato Nacional da Indústria de Trefilação e Laminação de Metais Ferrosos (Sicetel) que acusava “concorrência desleal dos produtos importados”.

Turismo é apontado como veículo de paz na ITB Berlin 2025

Turismo é apontado como veículo de paz na ITB Berlin 2025 (“Quando as pessoas podem viajar livremente e quando todos podem beneficiar do turismo, é mais provável que apoiem resoluções pacíficas e trabalhem em conjunto.” (Foto: Divulgação))

Ao celebrar seu 50º ano, a agência especializada das Nações Unidas está reafirmando sua visão fundadora do turismo para paz e segurança, ao mesmo tempo em que olha para um setor mais resiliente e inclusivo, ressaltado por investimentos e inovação. Na Messe Berlin, Membro Afiliado da ONU Turismo, a ONU Turismo serviu novamente como ponte entre líderes públicos e privados e, pela primeira vez, sediou uma cúpula de alto nível com Ministros do Turismo de 23 países.

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Abrindo oficialmente a ITB Berlin 2025, o Secretário-Geral da ONU Turismo, Zurab Pololikashvili, disse: “Assim como fizemos em Berlim e em muitas outras partes do mundo, quando as pessoas podem viajar livremente e quando todos podem se beneficiar do turismo, elas têm mais probabilidade de apoiar resoluções pacíficas e trabalhar juntas. E a paz e a segurança nos permitem alcançar nossa visão para o futuro. Nosso foco em educação, inovação e investimento está garantindo que o turismo não seja apenas um motor de crescimento econômico, mas também um veículo para empoderamento e sustentabilidade.”

O Secretário-Geral Pololikashvili também parabenizou Sua Excelência Edi Rama, Primeiro-Ministro da Albânia, por supervisionar o notável crescimento de seu país como destino. A Albânia, o país anfitrião do ITB Berlin 2025, foi o país com melhor desempenho na Europa em 2024 em termos de aumento de chegadas desde antes do início da pandemia. Também sediou a Comissão Regional da ONU Turismo para a Europa em 2024 e é um destino líder em investimentos turísticos, conforme destacado nas Diretrizes de Investimento em Turismo da ONU recentemente atualizadas para o país.

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Encontro dos Primeiros Ministros centra-se no investimento e na paz

Em Berlim, a ONU Turismo e a ITB celebraram um marco inédito com uma Discussão Ministerial de Alto Nível sobre “Aumentar o Investimento, Garantir a Paz: Aproveitar o Crescimento, Moldar o Futuro”. Juntando-se aos Ministros do Turismo e representantes de alto nível de 23 países estavam Julia Simpson, Presidente e CEO do Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC), da Rede Global de Membros Afiliados da ONU Turismo, da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) e do Istanbul Convention & Visitors Bureau.

Os líderes se concentraram na necessidade vital de paz e segurança para atrair investimentos, na importância de parcerias público-privadas e na boa governança para garantir que os investimentos tragam benefícios para o setor e também para as comunidades anfitriãs, apresentando boas práticas de destinos em todo o mundo.

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Durante o ITB Berlin, a liderança da ONU Turismo aproveitou a oportunidade para realizar reuniões de alto nível com vários de seus Estados-membros. Em Berlim, reuniões bilaterais foram realizadas com Ministros ou outros representantes importantes da Armênia, Camboja, Croácia, Indonésia, Polônia, Montenegro e Venezuela.

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Encontro da Hotelaria desbrava fronteiras e chega a Olímpia (SP)

Encontro da Hotelaria desbrava fronteiras e chega a Olímpia (SP) (Foto: Divulgação)

O ENCONTRO DA HOTELARIA, um dos mais importantes eventos da hotelaria brasileira, promovido pela Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação – FBHA, nesta edição conta com o patrocínio da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo – CNC, e tem o apoio do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares da Região de São José do Rio Preto -SINHORES, da Associação Olimpiense de Hotéis, Pousadas, Bares e Restaurantes – AOHPBR, da Associação Comercial e Industrial de Olímpia – ACIO e da Prefeitura da Estância Turística de Olímpia.

Depois de percorrer dezesseis cidades mineiras: Belo Horizonte, Caxambu, Poços de Caldas, Juiz de Fora, Ouro Preto, Montes Claros, Governador Valadares, Capitólio, Uberlândia, Monte Verde, Confins-BH Airport, Tiradentes, Brumadinho, Pouso Alegre, Sete Lagoas e Araxá, Olímpia foi escolhida para receber 24ª edição do evento. A primeira no Estado de São Paulo.

24° Encontro da Hotelaria e Gastronomia

O 24° ENCONTRO DA HOTELARIA E GASTRONOMIA está previsto para acontecer de 26 a 28 de junho, na Arena Olímpia Shows & Eventos. Para Marcos Valério Rocha, coordenador do escritório regional FBHA em Minas Gerais, idealizador e organizador do evento, “realizar a vigésima quarta edição em Olímpia, sendo a primeira no Estado de São Paulo, é um grande desafio, pois São Paulo é o maior e mais dinâmico mercado hoteleiro do Brasil, sendo ao mesmo tempo o maior destino do turismo de negócios além de maior mercado emissor do país. Concentra a maioria das sedes das grandes redes de hotéis nacionais e internacionais atuantes no país. Detém o maior parque hoteleiro do Brasil, onde Olímpia ocupa um lugar de destaque”.

O evento tem como objetivos: analisar os cenários hoteleiros e turísticos, aprimorar a gestão, avaliar procedimentos operacionais e as tendências do mercado. Nesse evento, haverá a participação de profissionais, técnicos, consultores, professores e palestrantes de reconhecida experiência e conhecimento; palestras e debates sobre temas da atualidade contribuirão para o desenvolvimento do setor, favorecendo a realização de novos negócios por meio de uma mostra de produtos e serviços, com a participação das mais importantes empresas fornecedoras atuantes no Brasil.

Nas próximas semanas esta coluna divulgará o “card” dos palestrantes e painelistas especialmente selecionados para este evento, que pela primeira vez desbrava fronteiras das Minas Gerais e chega ao estado de São Paulo, maior polo emissor brasileiro em todos os segmentos do turismo.

O público do 24º Encontro da Hotelaria será composto de empresários, executivos e profissionais dos principais hotéis, pousadas, resorts de Olímpia e de diversas cidades do Estado, também dirigentes sindicais, presidentes de entidades, agentes de viagens, turismólogos, fornecedores, representantes da administração pública municipal e estadual, além de consultores e jornalistas especializados.

O evento desde sua primeira edição em 2006, visa contribuir para a atualização e capacitação empresarial e profissional, análise do cenário atual e das tendências do mercado. Renomados profissionais, todos gestores de destacada atuação no mercado falarão sobre suas respectivas visões e propostas de soluções para o crescimento sustentável do setor hoteleiro e gastronômico nos próximos anos.

Olímpia – parques aquáticos mais visitados do mundo

A cidade cujas origens remontam sitiantes vindos exatamente de Minas Gerais, completou neste domingo (2 de março) 122 anos. Quando fundada em 1903, era apenas uma colônia agrícola e neste espaço de tempo se transformando em um dos maiores polos turísticos do país, impulsionado em especial pelo crescimento do setor hoteleiro e dos citados parques aquáticos. De terras férteis a uma das referências nacionais do turismo, a trajetória do município reflete o desenvolvimento econômico, inovação e investimentos estruturais que consolidaram Olímpia como Estância Turística.

Desde sua fundação, Olímpia se destacou pela produção agrícola. A cultura do café, predominante no início do século XX, abriu caminho para a pecuária e, depois, para o cultivo de cana de açúcar.

Depois veio a laranja, daí a origem do nome do primeiro parque aquático: Thermas dos Laranjais nos anos 80. A vanguarda da modernização da lavoura e o fortalecimento da agroindústria impulsionaram a economia local, criando as bases para um destino em constante crescimento. Paralelamente ao agro, o município investiu em infraestrutura e planejamento urbano, resultando em melhorias significativas em áreas de saúde, educação e transporte. Essas iniciativas foram essenciais para a diversificação dos modais econômicos preparando Olimpia para um novo virtuoso ciclo de desenvolvimento: O Turismo.

Com o sucesso do Parque Thermas dos Laranjais o visionário empresário local, Benito Benatti reuniu seus sócios e investiu em novas atrações criando assim um destino turístico pulsante que trouxe consigo investidores do setor de hotelaria. Um após o outro começaram a surgir os grandes resorts e outros atrativos de lazer. O crescimento do turismo culminou com o surgimento do Hot Beach que a partir daí consolidou o destino como referência no setor.

Depois do Thermas e a chegada em peso da hotelaria foi preciso oficializar este “boom”. O reconhecimento aconteceu em 2014 quando a cidade foi elevada a categoria de Estância Turística resultado dos esforços comuns e harmônicos dos governos municipal e estadual. Esse status garantiu novos recursos e benefícios fiscais para robustos investimentos o que propiciou o crescimento da rede hoteleira, melhorias na mobilidade urbana e expansão dos muitos atrativos turísticos.

A evolução fez Olimpia atingir um novo patamar como primeiro destino a receber a denominação de Distrito Turístico do Estado de São Paulo, consolidando-se como um dos principais polos do país. Em 2021 era inaugurado o maior resort do país, o Solar das Águas Thermas Resort.

Situada na Região Metropolitana de São José do Rio Preto que compõe um total de 37 municípios cujo planejamento estratégico é totalmente integrado. Dos iniciais 709 leitos em 2009, Olimpia disponibiliza hoje um total de 32.680 leitos distribuídos entre resorts, hotéis, pousadas e casas de aluguel por temporada.

Em 2024 o destino recebeu 5 milhões de visitantes representado um aumento de 23% em relação ao ano anterior. No total são 9 resorts, 18 hotéis, 4 flats, 50 pousadas e cerca de 500 casas de locação por temporada com RHC (Registro de Hospedagem Caseira).

Desta forma o turismo responde hoje por 65% da movimentação econômica do município impactando fortemente na geração de empregos em toda região. Este ano como o pródigo calendário de feriados Olimpia estima obter novo crescimento em todos os seus indicadores chegando a 6 milhões de visitantes.

A construção do Aeroporto Internacional do Norte Paulista, em Olimpia, representa um novo marco para o desenvolvimento da cidade e toda região. Com investimentos acima de 100 milhões de Reais a obra será executada pela Infraero e deve ser concluída até meados do ano que vem consolidando Olimpia definitivamente como um dos principais polos turísticos e econômicos do interior paulista.

Localizado a cerca de 20 kms do centro da cidade o aeroporto possibilitará pousos e decolagens de aeronaves de grande porte, um terminal de passageiros moderno, áreas de embarque e desembarque e espaços de apoio ao turista. A expectativa é operar até 1 milhão de passageiros por ano o que será uma mola propulsora para a atividade hoteleira, comércio e serviços.

SAVE THE DATE > 24 a 26 de Junho. Estaremos lá!

“Neste aniversário de 122 anos, Olímpia celebra não apenas sua história, mas também um futuro promissor, onde turismo, desenvolvimento e qualidade de vida seguirão caminhando lado a lado”

Maarten Van Sluys (Consultor Estratégico em Hotelaria – MVS Consultoria)

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Roteiristas desvalorizados: por que é tão difícil repetir sucesso de ‘Ainda Estou Aqui’?

Indicado ao Oscar, premiado no Globo de Ouro pela atuação de Fernanda Torres e no Festival de Veneza pelo roteiro, “Ainda Estou Aqui” demorou sete anos para ser idealizado, escrito e reescrito pelos autores Murilo Hauser e Heitor Lorega, antes do início das filmagens. Vencedor do Urso de Prata em Berlim em fevereiro deste ano, “O Último Azul” levou mais de dez anos para ser gestado e roteirizado pelo cineasta Gabriel Mascaro.

Hauser e Mascaro contaram à BBC News Brasil como foi o processo criativo para chegar ao roteiro que culminou nos dois filmes premiados. “Foram mais de dez anos investigando o tema do etarismo. Durante esse período, escrevi inúmeros roteiros completamente distintos entre si. Só no último roteiro é que senti vontade e segurança para filmar”, relata Mascaro, que escreveu em parceria com o músico Tibério Azul e contou com a consultoria de Hauser e Lorega. “Foi uma jornada longa, cansativa, mas muito fresca, prazerosa e gratificante.”

No caso de Ainda Estou Aqui, o convite do diretor Walter Salles para pensar em um roteiro a partir do livro de Marcelo Rubens Paiva veio em 2016. Salles reuniu um grupo de artistas por mais de um ano para desenvolver diferentes projetos e trocar impressões sobre eles.

“Durante esse tempo, Walter e eu pudemos compartilhar as propostas dramatúrgicas que estávamos pensando e ouvir impressões sobre elas, assim como acompanhar a jornada de outras narrativas de diferentes gêneros e formatos que nasciam ali. Essa polinização cruzada acredito que só fortaleceu os filmes”, afirma Hauser, que, junto com Lorega, escreveu o primeiro tratamento do roteiro em 2018.

Dali até a filmagem foram mais cinco anos de pesquisa, escrita e reescrita — e a interlocução com a equipe e o elenco seguiu durante os ensaios, as gravações e a montagem.

Trabalhar no roteiro de uma obra durante anos, com estrutura e liberdade criativa para pesquisar e escrever, é, no entanto, uma raridade entre profissionais da área no Brasil. Roteiristas e associações que representam o ofício se queixam de um mercado precarizado, com contratos desfavoráveis, baixa remuneração, desrespeito à propriedade intelectual e outras práticas de desvalorização profissional.

O advento da inteligência artificial, a escassez de editais públicos para etapas anteriores às filmagens e a demora para a regulamentação do mercado de streaming — o chamado VoD (video on demand, ou vídeo sob demanda) — são elementos que tornam esse cenário ainda mais desafiador.

“Na minha experiência, é uma exceção poder desenvolver um projeto por tanto tempo, com condições de trabalho e estrutura de produção que acolhem os autores e suas ideias e propostas”, diz Hauser. “Na maioria dos casos há uma enorme pressão em relação ao tempo de escrita, que precisa ser cada vez menor, e uma falta de qualidade na leitura dos materiais.”

Ele cita outra queixa comum de profissionais da área: a falta de continuidade dos trabalhos nos quais se envolvem. “Como o nosso mercado é influenciado por ondas de produção que fogem do nosso controle, todos os roteiristas que conheço já passaram por situações em que perderam o trabalho em projetos que foram descontinuados da noite para o dia”, relata.

Segundo o autor, as equipes de desenvolvimento (roteiro) dos canais e das plataformas de streaming estão cada vez mais enxutas e sofrem mais pressões para performar, “impossibilitando um diálogo criativo rico o suficiente para que seja capaz de nutrir o processo de maneira construtiva”.

“Isso pra mim é difícil de entender, pois investir em desenvolvimento de roteiro é a maneira mais econômica de fazer um filme crescer. É muito menos oneroso para a produção bancar pesquisa, consultorias e mais tratamentos de roteiro do que ter que parar a filmagem, refilmar cenas ou reinventar o filme na pós-produção”, afirma.

Murilo Hauser e Heitor Lorega são os roteiristas de ‘Ainda Estou Aqui’

Menos de um terço consegue viver da profissão

Um levantamento divulgado pela Abra (Associação Brasileira de Autores Roteiristas) no fim do ano passado, do qual participaram 559 roteiristas associados à entidade, mostrou que apenas 27,5% conseguem viver exclusivamente do trabalho com roteiro. A situação é pior do que em 2022, quando a pesquisa também foi realizada e 35,2% responderam o mesmo.

Nesses dois anos, a porcentagem dos que trabalhavam em regime CLT, que já era baixa (10,5%), caiu para 5,5% e aquelas que atuam como PJ (pessoa jurídica) em vagas fixas baixou de 13,1% para 8,8%.

Questionados sobre as dificuldades enfrentadas no dia a dia do trabalho, os autores citaram três principais queixas: remuneração inadequada, escassez de postos de trabalho e contratos considerados injustos. Não se sabe quantos roteiristas existem no país, mas pela Abra já passaram cerca de 1.500.

Mesmo admitindo que se trata de uma indústria que tradicionalmente atua por projetos, André Mielnik, presidente da Abra, cita como um exemplo de precarização o modelo de remuneração para o profissional, frequentemente por entrega ou por aprovação. O adequado, segundo ele, seria o pagamento mensal ou semanal, dentro de uma sazonalidade previsível.

“O pagamento por aprovação basicamente funciona assim: ‘se eu não gostei do que você escreveu, eu vou devolver e você vai escrever do jeito que eu quero e só assim você vai ser pago’. É o pior [sistema] de todos. São muitos os relatos de roteiristas que recebem por aprovação que estão endividados ou não conseguem dormir, relaxar, porque estão o tempo todo sob uma pressão intensa para conseguir receber e pagar as contas”, acrescenta.

De acordo com o presidente da Abra, o problema foi intensificado pela chegada das plataformas de streaming ao país, em 2013, ainda que já existisse antes disso. “O streaming puxa toda a força de trabalho para si e aí começam a aparecer um monte de aberrações. O que antes acontecia em um ou outro caso passa a ser generalizado”, afirma.

Outro dado da pesquisa é que 40% dos roteiristas disseram ter tido seus nomes omitidos nos créditos das obras ou creditados de forma equivocada ou injusta. “Os direitos de criação das obras são constantemente vilipendiados”, diz Mielnik. “Muitas vezes, por vaidade, pessoas que são ótimas articuladoras, produtoras ou diretoras, mas que não se sentam para escrever, querem colocar seu nome como criadoras. No audiovisual, as fronteiras são turvas.”

Formado em Letras com habilitação em língua portuguesa e em linguística e mestrado em literatura africana, Emil Moreira, de 42 anos, fez seu primeiro curso de roteiro em 2016. Hoje, ele consegue viver do ofício trabalhando com vídeos educacionais e para as redes sociais, mas enfrenta dificuldades para entrar no mercado de cinema e TV.

Moreira frequenta eventos do setor, paga valores que chegam a milhares de reais para participar de laboratórios e rodadas de negócios e presta seleções para vagas de assistente de roteiro. “Entrei nessa área pensando nisso e realmente estou investindo”, afirma. “Mas há poucas vagas e não falta mão de obra qualificada. Caí no discurso de que faltam roteiristas bem preparados no Brasil, mas não é verdade. A indústria do audiovisual nunca engrena, sempre vai sendo destruída no meio do caminho.”

Enquanto isso, ele roteiriza vídeos para cursos e criadores de conteúdo das redes sociais, mas reclama da desvalorização da atividade e do baixo poder de negociação, citando que alguns clientes querem pagar apenas R$ 30 por trabalho.

“O roteirista é PJ, mas na verdade é um trabalhador sozinho em um mercado que passou por uma ‘uberização’. Tem contratos que são draconianos. Tenho colegas que venderam o carro para trabalhar em séries. Depois aquela obra fica sendo explorada infinitamente e você não ganha em cima dela.”

Moreira se refere à falta de remuneração dos autores pela exibição de suas obras, que é outra grande reivindicação dos roteiristas brasileiros. A prática, existente em países como Argentina, México, Chile, Itália, Portugal, Espanha e Suíça, está prevista em dois projetos de lei no Congresso Nacional: o PL 2370/19, que tramita na Câmara, e o PL 4968/24, no Senado.

O valor seria arrecadado diretamente pelos autores ou por sociedades de gestão coletiva de direitos autorais e distribuído de acordo com o número de exibições da obra —semelhante ao que já ocorre com os compositores em relação ao Ecad.

Outra preocupação dos roteiristas, que é comum a jornalistas, escritores e outros detentores de direitos autorais, é de serem remunerados quando suas obras forem utilizadas para treinar sistemas de inteligência artificial. A proposta está contemplada em outro projeto de lei, o PL 2338/23, aprovado pelo Senado no fim de 2024 e que agora está sendo apreciado na Câmara.

“Muitos roteiros foram minerados e utilizados como base para treinar esses modelos de inteligência artificial generativa. As empresas precisam pagar para usufruir desses dados”, afirma Mielnik, da Abra.

Vencedor do Urso de Prata em Berlim em fevereiro deste ano, ‘O Último Azul’ levou mais de dez anos para ser gestado e roteirizado pelo cineasta Gabriel Mascaro

Inquérito

Após denúncias da Abra, o Ministério Público do Trabalho (MPT) do Rio de Janeiro abriu um inquérito civil, em setembro de 2024, para investigar as condições de trabalho dos roteiristas que escrevem para serviços de streaming como Netflix e HBO. Dois anos antes, a associação havia feito um pedido de mediação dessas relações contratuais diretamente com as plataformas, que não quiseram negociar.

Como a contratação desses profissionais acontece por meio de produtoras, são elas as investigadas no inquérito. “Tecnicamente, não existe uma relação jurídica entre os roteiristas e as plataformas de streaming. É uma relação triangular. O que está sendo sugerido é que haveria responsabilidade delas na cadeia de produção, que é uma teoria jurídica um pouco mais arrojada”, afirma o procurador Cassio Casagrande, responsável pelo caso.

O procurador diz ter notado, na fase inicial do inquérito, um padrão na forma como os roteiristas são contratados. “Na visão deles, existe uma situação desvantajosa, em que os contratos já vêm prontos, sem possibilidade de negociação de fato, sem multa por rompimento do contrato e com exigência de exclusividade sem remuneração por isso, por exemplo”, diz.

Casagrande já colheu depoimentos dos responsáveis por essas empresas, ouviu a manifestação da Abra e agora aguarda o envio dos contratos para verificar se há possibilidade de atuação do MPT. O prazo para conclusão desse tipo de processo é de dois anos, com possibilidade de prorrogação.

Formado em Letras com habilitação em língua portuguesa e em linguística e mestrado em literatura africana, Emil Moreira, de 42 anos, fez seu primeiro curso de roteiro em 2016

Editais pré-filmagem

Outro gargalo citado por roteiristas é a escassez de fomento público para essa atividade. Desde 2018, não há editais do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) específicos para o desenvolvimento de roteiros, por exemplo.

Mesmo antes disso, de 2014 a 2018, menos de 6% dos recursos do FSA foram direcionados a editais de desenvolvimento, enquanto a produção (a realização de um filme ou série) recebeu 63% da verba, como mostram as pesquisadoras Ana Paula Sousa e Maria Marta Pinto na publicação “Desenvolvimento de Impacto”, lançada em outubro de 2024 pelo Projeto Paradiso com o Hubert Bals Fund.

Em 2014, o ano em que mais se investiu em desenvolvimento no país, foram disponibilizados, para essa etapa específica, R$ 47 milhões. “Para se ter uma ideia do que isso significa, em 2022, o Creative Europe, programa de financiamento da União Europeia de apoio aos setores criativos, investiu 15% do orçamento destinado ao audiovisual em linhas de desenvolvimento, totalizando 55,5 milhões de euros”, compara a publicação.

Com o fim da pandemia e do governo Bolsonaro, quando os recursos do FSA voltaram a ser liberados, o foco voltou-se totalmente para o que acontece a partir das filmagens, e não antes. “Há, no setor da produção, a percepção de que o poder público ainda tem certa resistência a investir em desenvolvimento pelo fato de o aporte não necessariamente levar a uma obra”, afirmam Sousa e Pinto na pesquisa.

Roteiristas, porém, argumentam que investir em roteiro é uma forma de reduzir o risco de produções audiovisuais. “Financiar uma boa escrita não é um ‘custo extra’, mas um investimento inteligente”, argumenta Gabriel Mascaro, de O Último Azul. “O roteiro é o coração pulsante de um filme. Claro, muita coisa se transforma na montagem, mas há uma paz criativa enorme em chegar ao set com um roteiro sólido e vibrante. Foi o que aconteceu neste filme, e essa segurança me permitiu tatear no inesperado que surgia no momento da filmagem com ainda mais liberdade, porque já tinha a base do roteiro sedimentada.”

Diretor dos filmes que escreve, Mascaro seguiu um caminho mais autoral, buscando financiamento por meio de fundos estaduais, grants internacionais e residências artísticas.

Mas ele pondera que esse modelo prioriza diretores que escrevem e diz que sente falta de iniciativas focadas no desenvolvimento de roteiristas. “Um roteiro forte nasce de um processo longo e profundo. O desenvolvimento não é um luxo, mas uma necessidade para que o cinema siga sendo um espaço de invenção”, afirma.

‘EUA estão virando cada vez mais uma oligarquia, com Trump e Musk no centro’

Cena 1: Donald Trump assume a presidência dos Estados Unidos, rodeado por magnatas do setor tecnológico, como Elon Musk, Mark Zuckerberg e Jeff Bezos. Ao lado deles, diversos bilionários são escolhidos para ocupar postos-chave no governo.

Cena 2: Musk, o homem mais rico do mundo, aparece de pé no Salão Oval da Casa Branca, com o presidente sentado ao seu lado. Ele explica sua missão de reduzir e reformar o governo americano, em meio a relatos de que seu poder e patrimônio aumentaram depois da eleição de Trump.

Cena 3: surge o anúncio de que a rede social X (antigo Twitter), de propriedade de Musk, concordou em pagar cerca de US$ 10 milhões (cerca de R$ 57,5 milhões) para firmar um acordo sobre uma ação judicial movida por Trump, relativa à suspensão da sua conta na plataforma, em 2021.

Uma sequência de fatos entrelaçando poder e dinheiro vem marcando os Estados Unidos, desde que Trump voltou à Casa Branca, no último dia 20 de janeiro. E, segundo o economista Robert Reich, esta situação vem transformando cada vez mais o país em “uma oligarquia”.

“Estamos perdendo nossa democracia”, alerta Reich, em entrevista à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC. Ele foi secretário do Trabalho dos Estados Unidos, durante o primeiro mandato do presidente democrata Bill Clinton (1993-1997).

O ex-presidente americano Joe Biden lançou uma advertência similar, no seu discurso de despedida da Casa Branca em janeiro. Mas Biden evitou mencionar pessoas específicas na sua mensagem.

Reich afirma que Trump e Musk representam “o centro” dessa oligarquia que, para ele, está assumindo o controle dos Estados Unidos.

“Musk é o veículo que serve para a realização deste golpe oligárquico”, explica Reich. “Ele detém a riqueza e o conhecimento tecnológico, com as pessoas que ele trouxe para fazer o que Trump não poderia fazer com facilidade.”

Muitas pessoas levam a sério os avisos de Reich. Além de economista, ele é professor emérito de políticas públicas da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos.

Reich também foi assessor da transição do governo de Barack Obama e é autor de diversos livros, como O Trabalho das Nações (Ed. Educator, 1994), que foi traduzido para 22 idiomas. Ele é o protagonista do documentário Salvando o Capitalismo (2017), disponível na Netflix.

Em 1994, Reich já alertava que a sociedade americana era separada em dois níveis, “com alguns poucos ganhadores e um grupo mais amplo de americanos que ficam para trás – e sua ira e desilusão podem ser facilmente manipuladas”.

A BBC News Mundo preparou uma síntese do diálogo telefônico com Reich. Confira abaixo.

Para o economista Robert Reich, em Washington, ‘o dinheiro flui’ e ‘se poderia dizer que os conflitos de interesses [hoje] são maiores do que nunca’

BBC News Mundo: No seu discurso de despedida, Biden afirmou que “está tomando forma nos Estados Unidos uma oligarquia de extrema riqueza, poder e influência, que realmente é uma ameaça” à democracia. O sr. concorda?

Robert Reich: Os Estados Unidos estão se tornando cada vez mais uma oligarquia. Estamos perdendo nossa democracia.

O governo Trump rejeitou a autoridade do Congresso sobre as nomeações, sobre os gastos, e destacou que já não se sente obrigado a cumprir as ordens dos tribunais federais.

Se um presidente já não presta atenção aos outros poderes – que são iguais, segundo a Constituição americana –, isso equivale a um golpe: uma tomada de poder de todo o governo por parte do presidente. Isso é inconstitucional.

BBC: A que o sr. se refere quando fala em oligarquia?

Reich: A oligarquia é um pequeno grupo de pessoas que, com sua riqueza e poder, governam toda uma nação.

Elon Musk, por exemplo, é a pessoa mais rica de todo o mundo. Donald Trump, no momento, é a pessoa mais poderosa de todo o mundo. Juntos, eles representam o centro da oligarquia americana.

Eles estão planejando um grande corte de impostos, cujos benefícios irão principalmente para as pessoas muito ricas dos Estados Unidos.

Eles começaram a desregulamentar o país, o que significa que as proteções de saúde, segurança e meio ambiente, que são muito importantes para evitar a espoliação das grandes corporações, não irão mais proteger o cidadão comum.

Isso é uma grande vantagem para a oligarquia, que fica ainda mais rica. Suas corporações terão resultados ainda melhores e serão mais rentáveis.

BBC: É possível argumentar que a política e o dinheiro estão entrelaçados há muito tempo nos Estados Unidos, tanto nos governos republicanos como democratas. Qual é a diferença, agora?

Reich: Você tem razão. O dinheiro vem entrando cada vez mais na política americana.

Até mesmo antes que a Suprema Corte o permitisse, tínhamos uma grande quantidade de dinheiro das corporações e indivíduos muito ricos corrompendo nossa política. Eles entravam na política americana, tanto na forma de contribuições para as campanhas, quanto de grupos de pressão e relações públicas.

Mas o que ocorreu é que as restrições que ainda permaneciam, agora, desapareceram por completo. Tudo está às claras.

As pessoas mais ricas dos Estados Unidos estão fornecendo dinheiro a Trump, Musk e seu governo de forma clara, óbvia e desafiadora.

Digo Trump e Musk quase indistintamente porque eles estão no centro desta nova oligarquia. O dinheiro flui. Seria possível dizer que os conflitos de interesse são maiores do que nunca.

Quero dizer que as pessoas que estão na alta administração, como Trump e Musk, tomam decisões que beneficiam financeiramente a eles próprios, mas não necessariamente ao público americano, quando é o caso.

BBC: O sr. pode dar exemplos?

Reich: Tenho muitos exemplos.

Donald Trump está emitindo suas próprias formas de tokens de transferência eletrônica de fundos. São instrumentos financeiros nos quais as pessoas podem investir.

Por que o presidente dos Estados Unidos não deveria emitir tokens nos quais as pessoas podem investir? Porque eles são o seu próprio negócio particular e, com ele, Trump está ganhando muito dinheiro.

Reich é uma referência nos Estados Unidos sobre temas de desigualdade e direitos dos trabalhadores

Elon Musk também está muito envolvido com as criptomoedas. E Musk e Trump são os encarregados de regulamentar as criptomoedas no futuro.

Eles têm um claro conflito de interesses, já que terão benefícios particulares se houver pouca ou nenhuma regulamentação das criptomoedas. Mas o público precisa de proteção contra isso.

Outro exemplo: Musk e Trump já transformaram o Escritório Nacional de Relações Trabalhistas [NLRB, na sigla em inglês] em um organismo ineficaz, demitindo seu presidente.

Isso permite que Musk e suas empresas tenham resultados financeiros ainda melhores. Mas potencialmente prejudica a saúde, a segurança e o meio ambiente dos americanos, bem como o direito dos trabalhadores de formar sindicatos.

Trump detém grande quantidade de interesses empresariais privados que também se beneficiam da sua desregulamentação, do congelamento dos gastos federais e da demissão possivelmente ilegal de pessoas que trabalham nos escritórios e comissões reguladoras e que, de outra forma, poderiam limitar estes benefícios.

Tudo isso é o que faz uma oligarquia. É oligarquia clássica.

BBC: O sr. atribui isso a um plano elaborado ou acredita que ocorra de forma improvisada?

Reich: Não acredito que seja improvisado.

Trump chegou ao poder com um plano muito detalhado, chamado Projeto 2025. Ele foi elaborado por muitas pessoas que haviam trabalhado no seu primeiro mandato ou que, agora, estão no segundo governo Trump. Um exemplo é o diretor do Escritório de Gestão e Orçamento.

O Projeto 2025 é um plano de ação para a tomada dos Estados Unidos pela oligarquia.

BBC: Isso é mais importante do que as outras medidas tomadas pelo governo Trump, como em relação à imigração, às mudanças das políticas de diversidade ou às tarifas de comércio exterior?

Reich: É muito importante que o público compreenda que a estratégia de Trump e Musk é fazer com que os americanos briguem entre si.

Ao se desfazer das políticas de diversidade, igualdade e inclusão, por exemplo, o governo Trump exacerba tensões dentro dos Estados Unidos. O mesmo acontece quando se vai contra os imigrantes sem documentação válida.

Ele está dividindo os Estados Unidos e causando muita dor às famílias.

Com estas estratégias de dividir as pessoas por raça, etnia e nacionalidade, a oligarquia quer que os americanos fiquem irritados uns contra os outros, para não olharmos para cima e vermos para onde realmente foi toda a riqueza e o poder.

Trata-se de uma estratégia oligárquica clássica.

BBC: De qualquer forma, uma maioria de americanos votou em Trump, sabendo que ele é muito rico e que gosta de ficar rodeado por multimilionários. E é possível que eles vejam esses multimilionários como homens de negócios bem sucedidos, que usaram sua experiência no setor privado para “fazer a América grande novamente”. Qual é o problema com isso?

Reich: O problema é que, nos últimos 40 anos, muitas das pessoas que são muito ricas nos Estados Unidos empregaram sua riqueza para ganhar poder político e mudar as regras do jogo, as regras do nosso sistema político e econômico, para que lhes dessem ainda mais riqueza e poder, mas prejudicando o trabalhador médio.

É por esta razão que, se você ajustar pela inflação, o trabalhador americano comum não teve aumento de receita ou riqueza. E também é por este motivo que os Estados Unidos se tornaram tão extraordinariamente desiguais, em termos de receita ou riqueza, nos últimos 40 anos.

Peter Thiel fundou o PayPal ao lado de Elon Musk. Para Reich, ele faz parte do movimento antidemocrático que vem ganhando poder e influência nos Estados Unidos

Em outras palavras, Trump procurava ser a voz do povo, do trabalhador médio. Mas, na realidade, esta oligarquia emergente conteve o trabalhador médio. E Trump encabeça esta oligarquia emergente.

BBC: E qual seria o papel de Elon Musk, o homem mais rico do mundo, e da autoridade que foi conferida a ele para cortar gastos e regulamentações?

Reich: Elon Musk está fazendo o que Donald Trump não consegue fazer.

Musk e as pessoas que ele trouxe para o chamado Departamento de Eficiência Governamental – que, na verdade, não é um departamento [ministério], já que o Congresso nunca o aprovou – estão fustigando os dados do governo americano, do Tesouro e de outros departamentos. Eles estão obtendo o código de informática que permite deter os gastos e transportá-los para outras finalidades.

Musk é o veículo que serve para a realização deste golpe oligárquico. Ele detém a riqueza e o conhecimento tecnológico com as pessoas que trouxe para fazer o que Trump não poderia fazer com facilidade.

BBC: O sr. também destacou, em um artigo recente, o papel do vice-presidente J. D. Vance neste contexto e a influência exercida por multimilionários como Peter Thiel, um dos fundadores do PayPal, ao lado de Musk. Como seria isso?

Reich: Peter Thiel se autodenomina libertário. Ele escreveu muito sobre sua visão de que a democracia seria incompatível com as liberdades pessoais.

Seu grupo no Vale do Silício e em outros lugares faz parte da oligarquia que pretende substituir a democracia americana pela sua própria riqueza e poder.

É muito importante entender que Peter Thiel e J. D. Vance são muito unidos. A campanha de Vance ao Senado em Ohio, em 2022, foi financiada, em grande parte, por Thiel. Ele investiu nela US$ 15 milhões [cerca de R$ 86 milhões].

Thiel também foi um dos principais investidores da campanha de Trump em 2016. Por isso, ele detém influência. E, quando Trump procurava um vice-presidente, Thiel defendeu que J. D. Vance seria perfeito e ele se tornou vice-presidente.

J. D. Vance já deixou muito claro que, para ele, o governo não está sujeito aos tribunais federais. Esta é uma ideia bastante revolucionária, pois, se o poder judiciário federal não tiver poder sobre o executivo, sobre o presidente e o vice-presidente, eles podem fazer o que quiserem.

Esta noção expressa por J. D. Vance faz parte da tomada de poder do governo federal por esta oligarquia.

BBC: Talvez Trump seja mais negociante do que outros presidentes, mas alguns especialistas defendem que ele detém o poder político em Washington e pessoas como Musk, Zuckerberg e Bezos obedecem a ele e não o contrário. Esta não é uma diferença em relação ao que geralmente se considera uma oligarquia clássica?

Reich: Se Trump é o centro do poder, se Musk é o centro ou se o centro é composto por Musk, Trump, Bezos, Zuckerberg e outros como Rupert Murdoch e Peter Thiel, não tem muita importância.

São todos eles. Eles estão juntos, são o centro da oligarquia e da tomada de controle da democracia americana.

BBC: Outros afirmam que a contribuição econômica das suas empresas, como a Tesla, Meta ou Amazon, é pequena em comparação com outros países frequentemente considerados oligarquias, como a Rússia. O que o sr. pensa a respeito?

Reich: Bem, podemos discutir a contribuição econômica.

Muitas pessoas, como eu, acreditam que essas empresas gigantes, como a Meta, Amazon e SpaceX, por exemplo, são monopólios. E, como monopólios, são ineficientes. Elas fazem com que a economia seja menos dinâmica do que deveria.

Reich testemunhou em comitês dos Estados Unidos sobre temas como a desigualdade de renda

Veja a inteligência artificial. Por que uma pequena empresa chinesa, sem gastar muito, consegue deixar para trás a Google, Meta e todos esses monopólios gigantescos dos Estados Unidos? Porque esses monopólios, na verdade, não são inovadores, pois são muito poderosos e são monopólios.

Esta é a posição adotada pela ex-presidente da Comissão Federal de Comércio, Lina Khan. E acredito que ela tenha razão.

BBC: É verdade que Biden também alertou sobre um crescente “complexo industrial tecnológico que poderia representar perigos reais” para os Estados Unidos. O sr. concorda?

Reich: Sim, pois estas gigantescas empresas tecnológicas são muito poderosas, não apenas como monopólios, mas também para coletar informações sobre os cidadãos americanos e pessoas do resto do mundo.

E este poder sobre os dados é muito perigoso, se estiver concentrado. Ele poderia potencialmente intimidar as pessoas e oferecer à oligarquia ainda mais poder sobre o cidadão comum.

A informação, atualmente, é um ingrediente fundamental em termos de poder e dominação global.

BBC: Qual o sr. considera que seja a raiz do problema para o sistema democrático americano? O financiamento das campanhas? A falta de regulamentação do papel do dinheiro na política? Ou ambos?

Reich: O principal problema do sistema, em primeiro lugar, são as enormes quantidades de dinheiro provenientes de grandes empresas e pessoas muito ricas que dominam a política.

Isso não é algo novo. Mas Donald Trump é o ápice, a consequência de anos deste sistema fora de controle, do grande capital infectando e enfraquecendo a democracia.

Em segundo lugar, vem o fato de que uma parte cada vez maior da economia dos Estados Unidos está nas mãos de menos pessoas, com corporações gigantescas, que se apoderam de diversos mercados e indústrias.

Estes dois fatores andam lado a lado, pois, quando você tem monopólios, existe uma grande quantidade de riqueza acumulada e concentrada em muito poucas mãos. Isso pode ser usado com fins políticos, em contribuições de campanha, para lobby e relações públicas.

Tudo isso, em conjunto, enfraquece a democracia e fortalece a oligarquia.

BBC: Como o sr. vê o papel do Partido Democrata e da oposição em geral nos Estados Unidos, neste início do segundo governo Trump?

Reich: O Partido Democrata não está unido. Não tem uma estratégia. Não tem uma voz clara.

Uma parte do partido está muito preocupada com isso. O ex-presidente Biden articulou muito bem a preocupação com a oligarquia.

Mas existem outros setores do Partido Democrata que querem se aproximar das grandes corporações e dos ricos, dizendo a eles: apoiem as nossas campanhas no futuro. Bem, não é possível ter as duas coisas.

Em sua mensagem de despedida da Casa Branca, Joe Biden alertou contra a oligarquia sendo formada nos Estados Unidos que, a seu ver, é uma ameaça à democracia.

O Partido Democrata precisa ser o partido contra a oligarquia, a favor da democracia, o partido que não depende do grande capital. Ele precisa voltar a ser o partido dos trabalhadores, como foi na década de 1930, com o ex-presidente americano Franklin D. Roosevelt [1882-1945].

BBC: A palavra “oligarquia” costumava ser usada nos Estados Unidos para descrever mais o que acontece na Rússia ou na Europa oriental, longe da realidade de Washington. Isso está mudando?

Reich: Sim. O uso com tanta clareza do termo “oligarquia” pelo ex-presidente Biden representou um grande avanço para que os americanos possam compreender o que está acontecendo.

A confluência de riqueza e poder nas mãos de muito poucos na cúpula dos Estados Unidos é extremamente perigosa para a democracia. É antiética à democracia.

Ela ocorre na Rússia, na China e em outros lugares. E, se não tiverem cuidado, os europeus também terão cada vez mais riqueza e poder nas mãos de menos pessoas.

Isso não é novidade. Na verdade, no final do século 19, tínhamos uma oligarquia nos Estados Unidos, com enorme riqueza e poder nas mãos de muito poucas pessoas.

Ela foi chamada de “Idade Dourada” e os detentores deste tipo de riqueza e poder eram chamados de “barões ladrões”.

No final deste período, na década de 1920, o grande jurista da Suprema Corte Louis Brandeis [1856-1941] declarou aos Estados Unidos, com muita clareza, algo que é igualmente relevante hoje em dia:

“Precisamos escolher. Podemos ter riqueza nas mãos de alguns poucos ou podemos ter democracia. Mas não podemos ter as duas coisas.”

Carnaval de Brasília deve movimentar R$ 320 milhões na economia local

Na temporada mais colorida e animada do ano, o carnaval movimenta diferentes setores da economia local — da produção de fantasias ao comércio ambulante —, e tem contribuído fortemente para a geração de empregos e de renda. A estimativa é que, neste ano, as festividades injetem mais de R$ 200 milhões nos cofres do Distrito Federal, segundo Riezo Silva, professor e mestre em economia pela Universidade de Brasília (UnB). Espera-se que sejam abertas aproximadamente 850 vagas temporárias, com carteira assinada, representando um crescimento de quase 12% nesse segmento em comparação a 2024. “O comércio local está otimista, projetando um aumento de 10% nas vendas em comparação ao ano anterior”, destaca o economista.

Os lucros são refletidos no aumento de vendas, na expansão do setor de serviços e na arrecadação de tributos, como o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e o Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS). A previsão é de que este seja o segundo maior carnaval da história do DF, ficando atrás somente de 2015, quando o valor ajustado aos efeitos sazonais atingiu R$ 322,6 milhões.

A data também deve movimentar mais de R$ 320 milhões em atividades relacionadas ao turismo na capital, conforme indica uma pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Esse montante representa um aumento de aproximadamente 1,5% em relação a 2024.

Vale lembrar que, neste ano, como o carnaval é em março — até o dia 4 — o número de pessoas que deixarão o DF em direção a outros estados ou países deve apresentar queda de 63,3%. Assim, o total dos que viajarão não deve passar de 76 mil pessoas, segundo estima o Sindicato do Comércio Varejista do DF. No ano anterior, quando a festividade ocorreu no início de fevereiro, saíram da capital cerca de 120 mil pessoas.

Isso se deve ao fato de que, em março, crianças e jovens já voltaram às aulas e, normalmente, a maioria dos servidores públicos tira férias entre janeiro e fevereiro. Ou em julho. O empresário Sebastião Abritta, presidente do Sindivarejista, explica que “mais gente no DF durante o carnaval significa, na prática, mais consumo e crescimento da economia”. Amanhã e na segunda-feira de carnaval, o comércio do DF está autorizado a abrir, mas fechará na terça-feira, reabrindo na quarta-feira de cinzas.

A Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF (Secec-DF) estima a participação de 62 blocos carnavalescos, seis a mais do que no ano passado. Os investimentos na festa cresceram de R$ 6,3 milhões para R$ 8,2 milhões, e a expectativa de público chega a 2 milhões de pessoas. “O investimento para o carnaval de 2025 representa um aumento de mais de 30% em relação a 2024. Além disso, o número de blocos contemplados com recursos públicos cresceu mais de 15% em comparação ao ano anterior, reforçando o incentivo ao carnaval de rua no DF”, compartilha Claudio Abrantes, chefe da pasta.

Um desses cortejos é o Bloco do Amor, nascido em 2015, que sairá dia 3. Inicialmente voltado para o público LGBTQIAP , o bloco registra de 50 a 70 mil foliões na Via S2, abaixo do Museu da República. “Até 2021, nós costumávamos contabilizar de 30 a 35 mil pessoas no local. Porém, nos últimos dois anos, especialmente em 2024, o evento cresceu significativamente”, conta Gustavo Letruta, um dos organizadores do bloco.

Neste carnaval, o Bloco do Amor completa 10 anos de existência, com o tema “Bodas de Zinco”. A festa, segundo a organização, será “colorida, apaixonante e irá conquistar os corações dos foliões. Com muita música, dança, performances e respeito”. No ano passado, o Bloco do Amor foi o grande campeão do prêmio CB Folia de 2024, do Correio Braziliense, escolhido como o melhor cortejo pelo júri técnico e pela votação popular (confira Vote no melhor bloco do DF).

A festa vai além dos recursos liberados pela Secec-DF para blocos de rua e eventos oficiais. São notáveis os impactos na produção de fantasias e adereços e na contratação de artistas, técnicos e trabalhadores do mercado informal. Um exemplo é o empreendimento da arquiteta e empresária Beatriz Pimentel, 23 anos, que optou por produzir uma coleção da sua marca de roupas para esta época do ano.

“A Pimear sempre explorou a moda como uma forma de expressão artística. Costumo dizer que produzimos ‘arte de vestir’, e o carnaval é o momento perfeito para isso. A coleção ‘Ginga’ traz peças artesanais inspiradas no espírito contagiante do carnaval, diferentes cores, texturas e detalhes de uma maneira autêntica e divertida”, conta.

Assim como Beatriz, a aposentada Regina Célia dos Santos Batista, 60, também começou a fazer peças para o período carnavalesco, por meio da Baru Ateliê. “Tenho feito peças de crochê desde o ano passado e minha filha Pryscilla me deu ideia de fazer uma coleção de peças para este período”, diz. Ela afirma que a expectativa é de lucrar R$ 2 mil com as vendas.

Além dos serviços relacionados à produção de eventos culturais, o volume financeiro estimado pela CNC também engloba setores como alimentação, transporte e hospedagem. O hotel Royal Tulip, do grupo Louvre Hotels, afirma que o carnaval é o segundo feriado mais movimentado do ano, ficando atrás somente do réveillon.

“Estamos aguardando uma ocupação de 80% do hotel e um aumento de 40% nos lucros. A lucratividade cresce significativamente durante o carnaval, impulsionada pela excelente programação do evento, que também influencia a elevação das tarifas”, explica a gerente comercial Centro-Oeste do Louvre Hotels Group, Aryane Borges.

A CNC afirma que o DF está em nono lugar entre as unidades da Federação com maior movimentação financeira no ramo de atividades turísticas durante o carnaval. Segundo o presidente do Sistema Fecomércio-DF, José Aparecido Freire, o crescimento do carnaval brasiliense tem destacado o potencial da cidade para o turismo. Dados do Instituto de Pesquisa e Estatística comprovam que cerca de 10% dos foliões são de fora da capital, sendo a maioria de Goiás e Minas Gerais, seguidos de São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro.

Segundo a Inframérica, o Aeroporto de Brasília deve registrar um movimento de aproximadamente 260 mil passageiros durante a semana de carnaval. A previsão é que as companhias aéreas operem 1.851 pousos e decolagens no período e para atender à alta demanda, foram adicionados 53 voos à malha aérea do DF. A movimentação prevista para este ano representa um aumento de cerca de 7% em relação ao Carnaval de 2024.

O Deboche Bar, localizado na 201 Norte, também está preparando uma programação especial para um maior fluxo de frequentadores durante a festividade. Um dos proprietários do local, Pedro Gonzalez, 29, conta que no carnaval o bar costuma receber uma média de 500 clientes por dia, o que representa um crescimento de 40% no movimento de costume.

O carnaval também impulsiona a criação de empregos temporários, fortalecendo setores-chave da economia e promovendo a inclusão social, tanto no mercado formal quanto no informal. Segundo o secretário Cláudio Abrantes, eventos de grande porte como esse exigem uma gama de serviços para atender ao público, o que inclui desde a segurança até a limpeza, passando por funções de atendimento ao público e vendas de produtos.

“Com público estimado de 1,7 milhão de pessoas circulando no total do período, e utilizando-se da metodologia de 1 emprego temporário a cada 1.000 pessoas, a previsão é de geração de mais de 1,7 mil empregos temporários”, explica o secretário.

Os foliões que vão curtir os diversos blocos do DF poderão votar em seu favorito, aquele que melhor anima o carnaval na cidade neste ano. O Prêmio CB Folia está em sua 8ª edição e reconhece a importância da cultura e do lazer na capital. Organizado pelo Correio Braziliense, pela TV Brasília e pela Clube FM, o concurso avaliará o Melhor Bloco de Rua (1º, 2º e 3º lugares), o Melhor Momento, a Melhor Fantasia Adulta e a Melhor Fantasia Infantil. Os veículos de comunicação farão cobertura diária, em tempo real, ao longo dos quatro dias. Vencedores serão conhecidos em 7 de março, às 13h, ao vivo, pela TV Brasília.

Categorias do CB Folia

» Melhor Bloco de Rua

Júri Técnico

» Melhor Bloco de Rua

Votação Popular

» Melhor Momento

» Melhor Fantasia

» Melhor Fantasia Infantil

Governo e Eletrobras fecham acordo sobre participação e ações da companhia sobem

O governo federal e a Eletrobras chegaram a um acordo sobre a participação da União no controle da empresa. Com a definição, chega ao fim uma ação judicial que tramitava no Supremo Tribunal Federal (STF) questionando a vedação aos acionistas da companhia de exercerem seus votos em número superior a 10% da quantidade de ações do capital votante da antiga estatal.

A partir de agora, a União poderá indicar 3 dos 10 integrantes do Conselho de Administração, além de um dos 5 representantes do Conselho Fiscal da empresa, observando os critérios de elegibilidade do estatuto da Eletrobras. Em contrapartida, a Eletrobras deixa de ter a obrigação de aportar recursos para a construção da Usina de Angra 3, caso o governo federal decida por avançar no projeto.

Vale destacar que, mesmo com a não obrigação de pagamento, as garantias de R$ 6,1 bilhões atualmente prestadas pela Eletrobras nos financiamentos já concedidos por meio do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Caixa Econômica Federal ao projeto de expansão da usina nuclear em Angra dos Reis (RJ) permanecem inalteradas.

“Com o fim da ação no STF e mesmo sem a obrigação de investir na construção de Angra 3, os estudos de viabilidade da usina continuarão sendo feitos. O acordo concluído ontem prevê a abertura de um novo processo de conciliação que tratará exclusivamente deste tema. Esta decisão não afeta de nenhuma forma o encerramento da ação hoje em tramitação no STF e nem os demais termos do acordo firmado”, informa a companhia, em nota.

Acordo de investimento perderá validade

Por outro lado, o acordo de investimentos assinado em abril de 2022 com a Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional S.A (ENBPar) perderá seus efeitos no momento da assinatura do termo. Ainda de acordo com a Eletrobras, o acordo prevê o envio de esforços pela União para apoiar a empresa no processo de desinvestimento de sua participação na Eletronuclear, uma das empresas sob o domínio da ENBPar.

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“Com o encerramento das negociações, que ainda precisam ser validadas em assembleia de acionistas e homologadas pelo STF, o limite estabelecido na Lei 14.812 de junho de 2021 que fixou as condições de desestatização da Eletrobras e as regras previstas em seu estatuto permanecem válidas”, complementa, em nota, a empresa.

A Eletrobras foi privatizada em 2022 durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. Apesar disso, a União tentava recuperar o poder de voto que tinha nos conselhos da empresa. O acordo de privatização limita a participação do governo federal em 40% das ações da companhia, apesar de ter apenas 10% dos votos nas reuniões de acionistas antes do acordo anunciado nesta sexta-feira (28/2) e firmado no dia anterior.

Ações da Eletrobras sobem

Com o anúncio do acordo, os papeis da Eletrobras no Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovepsa/B3) lideram as altas entre todas as ações listadas na bolsa. Os papeis ordinários da empresa (ELET3) registravam valorização de 4,53% às 14h50, no horário de Brasília, enquanto que os preferenciais (ELET6) subiam 3,73% ao mesmo tempo.

A doença rara desvendada pela ciência na cidade do sertão onde ‘todo mundo é primo’

Silvana Santos ainda sabe de cor a casa e o nome de cada um dos moradores de Serrinha dos Pintos que perderam na infância a capacidade de andar.

As filhas de dona Loló na entrada da cidade, Rejane no recuo da estrada, Marquinhos logo depois do posto de gasolina, Paulinha em frente à escola…

Foi nesta cidade de menos de 5 mil habitantes no sertão do Rio Grande do Norte que a bióloga e doutora em genética descobriu, estudou e batizou uma doença genética rara até então desconhecida no mundo: a síndrome Spoan.

Causada por uma mutação genética que pode ser rastreada até os primeiros colonizadores a explorarem o sertão do Brasil, a síndrome afeta o sistema nervoso e causa um progressivo enrijecimento e enfraquecimento das pernas e dos braços. Nos afetados, os olhos apresentam um movimento rápido e involuntário.

Para que a síndrome se manifeste, a pessoa precisa herdar obrigatoriamente um gene com a mutação tanto da mãe quanto do pai.

Isso significa que, se os pais forem parentes e compartilharem a mesma herança genética, a chance de eles terem o mesmo gene mutado (e a síndrome ocorrer em seus filhos) aumenta consideravelmente.

Por estar distante de qualquer metrópole e isolada em uma serra com pouco histórico de novas pessoas chegando, em Serrinha dos Pintos é comum que os moradores tenham algum grau – ainda que distante – de parentesco.

Muitos casamentos, em alguns casos mesmo sem as pessoas saberem, ocorrem entre primos, fenômeno que interessa geneticistas como Silvana.

O Nordeste do Brasil, sobretudo nas cidades do interior, é a região onde essas uniões consanguíneas são mais comuns no país. Em algumas cidades, a taxa se aproxima de países do Oriente Médio, onde esse tipo de relação são parte da cultura e até incentivadas.

Também é no Nordeste onde estão concentrados mais casos de doenças raras genéticas, muitas ainda sem nome.

Até a chegada de Silvana, que se mudou e se apaixonou pela região, as famílias do Alto Oeste Potiguar, onde fica Serrinha, buscavam explicações para a doença que só existia ali.

Hoje, os moradores falam de Spoan e de genética com autoridade e firmeza, explicando que o termo “aleijados”, antes comumente usado, ficou no passado.

“Ela trouxe um diagnóstico que a gente não tinha. [Com a pesquisa], começaram a chegar pessoas, recursos, cadeiras de rodas”, lembra Marcos Queiroz, o Marquinhos, um dos pacientes com Spoan.

A BBC News Brasil foi até Serrinha dos Pintos com Silvana Santos, refazendo os passos que a pesquisadora deu há mais de 20 anos, para contar a história de como a síndrome rara foi descoberta.

Por sua pesquisa, Silvana Santos foi escolhida pela BBC no fim de 2024 uma das 100 mulheres mais influentes do mundo.

A lista – que conta ainda com as também brasileiras ginasta Rebeca Andrade e a ativista pelos direitos das prostitutas Lourdes Barreto – reconhece o impacto do trabalho dessas mulheres na busca por mudanças no mundo.

A descoberta por acaso

Inês teve dois filhos com síndrome Spoan

“Lá tem um monte de gente que não anda, mas ninguém sabe o que é”.

Foi isso que a geneticista Silvana Santos ouviu de seus vizinhos de rua, em São Paulo, sobre a cidade de onde vinham: Serrinha dos Pintos.

As casas espalhadas na vizinhança paulistana eram ocupadas por uma mesma família, muitos deles primos de diferentes graus casados entre si.

Na época, final dos anos 1990, Silvana fazia um doutorado na Universidade de São Paulo (USP) com o intuito de pesquisar justamente como casais de primos explicavam a origem de algumas doenças familiares.

“Minha ideia era entender como percebiam a genética em uniões consanguíneas, e comecei a testar meus questionários com eles, que viraram meus amigos. Eu não imaginava que estava em frente a uma doença desconhecida”, lembra Silvana.

Mas ela estava.

O quadro sem diagnóstico que chamava a atenção era o de Zirlândia, filha de um dos casais vizinhos.

Logo nos primeiros anos de vida, os olhos de “Zi”, como era chamada pela família, apresentavam um movimento rápido e involuntário. Com o tempo, os sintomas evoluíram para dificuldade em andar e perda motora grave. Suas pernas e braços atrofiaram, e Zi passou a usar uma cadeira de rodas e a precisar de ajuda com tarefas básicas.

Como Silvana e uma equipe de pesquisadores descobririam mais tarde, eram sintomas de uma doença que não havia registro na literatura médica: a síndrome Spoan.

Os anos de pesquisa, que incluiu a mudança definitiva de Silvana para o Nordeste, revelaram 82 casos de síndrome Spoan no mundo. Desses, 70 se concentram em cidades vizinhas no Alto Oeste Potiguar, 18 deles em Serrinha dos Pintos.

Serrinha dos Pintos: um universo à parte

Por convite dos vizinhos, Silvana decidiu conhecer a cidade durante um período de férias, junto às duas filhas pequenas. Ela descreve a chegada como o acesso a um “universo à parte”, não só pela beleza da caatinga esverdeada e das montanhas que compõem a Serra de Martins, mas também pelo quadro genético raro que parecia existir ali.

Quanto mais caminhava e conversava com os moradores, mais ela se surpreendia com um fenômeno que era muito mais comum do que imaginava: “Era todo mundo casado primo com primo”.

As explicações para tantas relações endogâmicas na região, além do isolamento geográfico, passavam pela crença de que esse tipo de casamento é mais duradouro. Também a rede de apoio ao redor do casal se mostrava mais robusta, concluíram as pesquisas feitas por Silvana.

Em muitos casos, porém, não queria dizer que as pessoas conscientemente buscassem esse tipo de união. “É que aqui em Serrinha todo mundo é primo se você for buscar”, conta a recém-casada Larissa Queiroz, 25 anos, que só descobriu estar namorando um primo após meses de relacionamento.

Em geral, o casamento entre pessoas de uma mesma família é bastante comum no mundo, com estimativas em torno dos 10%. E os filhos dos casais, na maioria dos casos, não nascem com deficiência, explicam os geneticistas.

Se o casal não é aparentado, a chance de ter um bebê com anomalia congênita, doença genética rara ou deficiência intelectual gira entre 2% e 3%, explica o geneticista Luzivan Costa Reis, pesquisador na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Caso sejam primos, a probabilidade fica entre 5% e 6% a cada gestação.

“Isso acontece em razão do aumento da probabilidade dos genitores terem uma mesma variante patogênica [mutação], que está presente na história familiar do casal.”

Isso quer dizer que, quando uma população tem pessoas com alguma mutação genética e casa entre si, os riscos para as doenças raras aumentam. E era justamente isso o que estava acontecendo em Serrinha dos Pintos.

As pesquisas nos anos seguintes mostrariam que, na cidade, mais de 30% dos casais eram consanguíneos – e desses, um terço possuía ao menos um filho com deficiência. Isso faz de Serrinha a segunda cidade do Brasil com maior índice de casamentos entre parentes, entre as já estudadas por geneticistas, mostra a pesquisa de Reis.

O Censo Nacional de Isolados (Ceniso), um levantamento do Instituto Nacional de Genética Médica Populacional (Inagemp) que identifica locais com alta frequência de doenças genéticas ou anomalias congênitas, mostra que o Nordeste é a região do país onde há mais casos de populações afetadas.

Os números, segundo pesquisadores consultados pela BBC News Brasil, são subestimados, já que o banco de dados é alimentado pelos próprios cientistas quando sai uma nova pesquisa descrevendo casos ou quando algum relato chega ao conhecimento do Ceniso.

“O Brasil é um país muito heterogêneo. Somos uma espécie de ‘caldeirão genético’, então é natural que tenhamos uma diversidade também de doenças trazidas por mutações dos povos que formaram essa população”, diz Lavínia Schuler-Faccini, coordenadora do Ceniso.

A inclusão da Spoan e das cidades do sertão do Rio Grande do Norte nesse mapa levou alívio às famílias que buscavam por respostas.

“Nós vivíamos no escuro. A luz só chegou quando foi descoberta a causa, que era um problema genético e degenerativo. Foi um alívio”, lembra a agricultora Elenara Queiroz, mãe de Paula Daiana, a Paulinha, uma das diagnosticadas com a doença.

A família chegou a viajar por cidades no Estado para tentar entender o quadro da jovem, descartando diagnósticos como o de paralisia infantil.

Embora o quadro não tenha cura, para a mãe, saber “o que esperar” da síndrome foi como soltar um suspiro longo depois de muito tempo prendendo a respiração. Uma chance de conhecer e atender melhor às necessidades de Paulinha, e também de um planejamento familiar para as próximas gerações.

A importância de se ter um diagnóstico clínico, ressalta Silvana, é justamente saber a evolução de uma doença.

“Para uma criança com dois anos de idade, a gente sabe como aquele quadro vai evoluir até os 80 anos, a sobrevida que a pessoa tem, as dificuldades que a pessoa vai ter. Então nós podemos orientar muito melhor a família”, diz.

Elenara conta que tinha um vago conhecimento sobre os riscos de casamento entre parentes.

“Só por conta de uma novela que eu assistia. Quando casei, tinha medo de ter um filho com deficiência. Durante a gravidez de Isabela [primeira filha, que nasceu sem a síndrome], passei nove meses com medo. Mas mesmo sabendo dos riscos, eu não via o pai delas como primo.”

“Em Serrinha, a população é basicamente formada por duas famílias: Queiroz e Fernandes. Mas a coincidência de meu esposo e eu termos os mesmos genes com ‘defeitos’ nos pegou de surpresa.”

Para seu marido, José Moura Sobrinho, a união com Elenara era predestinada, algo que o medo de alterações genéticas não poderia evitar.

“Eu acho que você pode namorar com quem for, mas se casa só com a pessoa certa.”

Para manter a pesquisa, Silvana viveu no Sertão do Rio Grande do Norte por três anos – depois, passou a morar no interior da Paraíba, onde descobriu outras doenças

Três dias de carro sozinha: o caminho até o diagnóstico

De volta a São Paulo após a primeira visita, Silvana sabia que tinha uma missão: encontrar um diagnóstico e uma explicação para as pessoas de Serrinha dos Pintos.

Com exames de seus vizinhos em mãos, ela procurou o neurogeneticista Fernando Kok, referência na área: “Expliquei a ele que estava buscando um diagnóstico para várias pessoas com os mesmos sintomas.”

“Ele me disse: ‘Silvana, eu não sei o que é. E provavelmente ninguém sabe’.”

Serrinha dos Pintos e as cidades no entorno passaram, então, a ser objeto de estudo. A pesquisadora começou a planejar os passos de para um estudo genético minucioso, algo que demandaria várias viagens – e a mudança definitiva – à região.

As músicas de Roberto Carlos tocavam no rádio enquanto Silvana dirigia sozinha mais de dois mil quilômetros entre São Paulo e Serrinha dos Pintos, um trajeto que não durava menos do que três dias e foi percorrido por ela dezenas de vezes nos primeiros anos de pesquisa.

Silvana ia de porta em porta, comia bolo e tomava café enquanto ouvia as histórias da família, perguntava sobre as pessoas com deficiência e colhia amostras de DNA.

A ideia era encontrar onde estava a mutação que causava a doença.

“Imagine que cada um de nós carrega enormes livros de receitas, chamados de cromossomos. São 23 livros no total [em cada célula], cada um com milhares de receitas que definem nossas características.”

O cenário complexo em Serrinha fez Silvana deixar sua vida em São Paulo, se mudar para a cidade vizinha de Martins (RN) com suas duas filhas e mergulhar nesse universo.

A pesquisadora viveu ali por cerca de um ano, até se mudar para Campina Grande, onde virou professora da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e de onde podia ficar indo com frequência às cidades potiguares.

O que seriam três meses de pesquisa de campo virou anos de dedicação a um projeto que mudou a vida de dezenas de pessoas que viviam sem diagnóstico no Sertão.

A publicação revelando para o mundo a existência de Spoan no sertão do Rio Grande Norte aconteceu em 2005, no Annals of Neurology, através do Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco (Genoma) da USP.

Manoel Firmino, conhecido como seu Lolô, vive com a filha Rejane, uma das pacientes com Spoan na cidade

A mutação genética e o velho Maximiano

A pesquisa do grupo de Silvana mostrou que a mutação consiste na perda de um pequeno pedaço de material genético em uma região específica do cromossomo 11, chamada 11q13.

A perda faz com que o gene KLC2, que produz uma proteína importante para o transporte de substâncias dentro dos neurônios, funcione de maneira exagerada.

Quando Silvana iniciou suas entrevistas e a pesquisa de campo para entender como a população explicava, os moradores muitas vezes relacionavam a doença a uma figura do passado, um homem conhecido como “Velho Maximiano”.

“Na época, diziam que a causa era uma sífilis hereditária que vinha do Maximiano, um homem da família da gente, um velho raparigueiro [mulherengo]”, conta o agricultor Manoel Firmino, conhecido como seu Lolô, que é pai de Rejane, uma das pacientes com Spoan na cidade.

A sífilis não tinha qualquer relação com a síndrome Spoan, mas a ideia que os moradores repetiam possuía, sim, uma explicação histórica.

“Antigamente, a sífilis não tinha tratamento, e quem pegava podia ficar em estado grave, inclusive ter perda motora e parar de andar. Então essa ideia de que a sífilis poderia estar causando essa doença. Não é uma ideia completamente sem sentido – embora não tenha relação com a Spoan, ela tem uma origem na história da ciência também”, diz Silvana.

Lolô, vaqueiro e agricultor há décadas, se casou com sua prima e nunca saiu de Serrinha dos Pintos. “Nunca fui para São Paulo ou qualquer outro lugar. Meu cunhado quis me levar para lá, mas recusei. Eu gosto é daqui, é mais arejado.”

Aos 83 anos e viúvo, Lolô ainda tange seus bois e cuida dos animais numa pequena casa na estrada que leva ao centro de Serrinha dos Pintos. Ele depende de familiares que moram no mesmo terreno para cuidar da filha.

Embora a Síndrome Spoan acometa o físico, e não as capacidades cognitivas, as limitações impostas pelo quadro acabam por prejudicar a saúde mental.

“E quando eles ficam para baixo, o que parece é que acaba piorando a condição como um todo. É como se o estado depressivo acelerasse o agravamento”, diz Claudia Galvão, terapeuta ocupacional e professora na Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Nos últimos anos, uma das funções de Cláudia foi ajudar os moradores de Serrinha com a síndrome a conseguirem cadeiras de rodas personalizadas para suas necessidades.

Rejane tem dificuldade para fazer tarefas consideradas simples para a maioria das pessoas, como pegar um copo. “Só depender dos outros é ruim. Hoje mesmo eu não posso fazer nada sem ajuda”, conta.

Ela compartilha o desejo de conseguir pagar sessões de fisioterapia, esperando que os movimentos, especialmente nas mãos, possam ficar melhores.

“Gosto muito de mexer no celular, mandar mensagem no Whatsapp… Coloco assim, pertinho da vista, porque não enxergo bem. E fico ouvindo hinos [música gospel].”

A BBC News Brasil tentou diversos contatos com a prefeitura de Serrinha dos Pintos para tratar da assistência aos pacientes com a síndrome Spoan na cidade, mas não recebeu respostas.

O governo do Rio Grande do Norte disse que está em fase de finalização do projeto junto ao Ministério da Saúde para o primeiro Centro de Referência em Doenças Raras do Estado, com foco nas doenças genéticas, “dada a demanda”. A Secretaria de Saúde estima que 300 crianças nascem com doenças genéticas por ano, “um número muito alto”.

O governo federal disse que pretende habilitar mais 28 laboratórios para diagnósticos precoces de doenças raras no Brasil e que aumentou em 40% os atendimentos ambulatoriais de pacientes nos últimos dois anos. Não foi informada uma política específica voltada para a região Nordeste.

A Ocupação do Sertão do Nordeste

Mutação que causa a Síndrome Spoan chegou na região com as primeiras ocupações de imigrantes no interior no Nordeste

A explicação genética para o que acontece no corpo de Rejane e de outras dezenas de pessoas na região é, na verdade, muito mais antiga do que o velho Maximiano.

A mutação que causa a Síndrome Spoan chegou na região com as primeiras ocupações de imigrantes no interior no Nordeste.

“Os estudos de sequenciamento genético mostraram uma maior contribuição europeia em pacientes com a Spoan, confirmando registros históricos que falam da presença de portugueses, holandeses e judeus sefarditas do litoral para o interior do Nordeste”, aponta Silvana, que calculou que a mutação tenha ocorrido há mais de 500 anos.

Essa hipótese é reforçada pela descoberta de dois pacientes com Spoan no Egito depois que as pesquisas brasileiras foram publicadas em jornais científicos internacionais.

“Isso permitiu que médicos geneticistas como eu pudessem identificar mais famílias [com casos de Spoan]”, diz Maha Zaki, responsável pelo achado no Centro Nacional de Pesquisas do Egito, no Cairo.

Segundo outra pesquisa, do geneticista Allyson Allan de Farias, na USP, a genética dos indivíduos brasileiros e egípcios apresentou ancestralidade europeia, sugerindo um ancestral comum na Península Ibérica.

“Isso sugere a vinda de casais aparentados de judeus sefarditas ou mouros que podem ter migrado da península Ibérica para fugir da Inquisição. Essa população se instalou no litoral e depois no sertão do Nordeste”, diz.

Para Silvana, “essa idade também nos indica que muito provavelmente existem mais pessoas com a síndrome Spoan espalhadas no mundo”, especialmente em Portugal.

A terapeuta ocupacional Claudia Galvão trabalha com Silvana em projetos para levar qualidade de vida aos moradores de Serrinha

Nova era

Desde a descoberta, não houve avanços significativos sobre uma cura ou estabilização da Spoan.

“A falta de investimento em pesquisas sobre o tema dificulta as descobertas”, avalia Silvana, que reforça a existência de doenças ainda desconhecidas no sertão nordestino.

Mas o acompanhamento dos que possuem a síndrome possibilitou alguns avanços para as comunidades do Alto Oeste Potiguar.

A primeira delas, lembra Rejane, era o modo como as pessoas tratam os que possuíam a síndrome. “Antigamente os mais velhos chamavam de aleijado. Nem deficiente era.”

Hoje, o termo pejorativo ficou para trás. Em vez dele, é explicado que eles “têm Spoan” – ou, como Silvana prefere, são os “spoanzinhos”.

A chegada das cadeiras de roda contribuiu não só para a independência de quem tem Spoan, mas também para impedir que o corpo fique curvado e as deformações se tornem muito severas.

Quando está em João Pessoa, a 530 quilômetros, a terapeuta Claudia Galvão troca mensagens com pacientes e familiares e escuta suas queixas e pedidos.

“Às vezes faço chamadas de vídeo e vou ditando para os familiares como tirar as medidas que preciso, do corpo e da cadeira, para poder ajustar algumas peças.”

As pesquisadoras confirmam a descrição de Maria Inês de Queiroz, mãe de dois homens com Síndrome Spoan, Marcos e Francisco, sobre a vida há algumas décadas.

Famílias que não tinham condições de buscar por cadeiras de rodas em cidades mais urbanizadas, como Natal, não tinham outra opção senão manter os parentes com a síndrome em uma cama ou no chão.

Como a Spoan causa atrofias musculares e deformidades no corpo, em alguns casos, não havia posição que acomodasse as pessoas com deficiências mais severas em um sofá ou cadeira.

Com avanços na tecnologia e nas pesquisas de Claudia no campo da terapia ocupacional, já foi possível dar uma versão motorizada da cadeira para vários pacientes.

Com pesquisas no campo da terapia ocupacional, já foi possível dar uma versão motorizada da cadeira para vários pacientes

A atrofia e limitações físicas impostas pela síndrome tendem a piorar com a idade. A partir dos 50, praticamente todos os pacientes tornam-se completamente dependentes.

É o caso dos filhos de dona Inês, que estão entre os mais velhos com Spoan na cidade. Chiquinho, aos 59, não consegue mais falar, e Marquinhos, aos 46, se comunica com dificuldade.

“É difícil ter um filho ‘especial’. A gente ama igual, mas sofre por eles”, diz Inês, casada com um primo de segundo grau. Dona de um mercadinho, ela aconselha parentes mais jovens a buscarem casamentos fora dos laços familiares em Serrinha.

A genética para novas gerações

Sobrinha de Marquinho e Chiquinho, Larissa Queiroz, 25, também se casou com um homem com quem divide um grau de parentesco, ainda que não de primeiro grau.

Larissa e seu atual marido, Saulo, só descobriram que tinham um ancestral em comum depois de alguns meses de namoro – algo que, para ela, acendeu um alerta.

“Eu não sei como as pessoas de fora pensam a respeito, mas aqui em Serrinha dos Pintos, no fim das contas, a gente é tudo uma família só. Quando mexe no fundo, a gente é primo, é parente de alguém… De alguém não, de todo mundo.”

Ela diz se sentir na responsabilidade de buscar um aconselhamento genético não só para saber seu risco em relação à Síndrome Spoan, mas também a outros quadros genéticos.

São casais como Larissa e Saulo que um novo projeto de pesquisa, que Silvana faz parte, visa orientar.

Por meio de um projeto do Centro de Estudos sobre o Genoma Humano e Células-Tronco (CEGH-CEL) da USP e com apoio do Ministério da Saúde, os pesquisadores pretendem iniciar uma triagem de genes responsáveis por doenças genéticas recessivas.

“A ideia é oferecer testes genéticos, que incluem sequenciamento do genoma, para buscar mutações e avaliar o risco que esses casais têm de ter um filho com uma doença genética grave”, explica Silvana

Coordenado pelo geneticista Michel Naslavsky, a proposta é estudar 5 mil casais em idade reprodutiva em São Paulo, Paraíba, Bahia e Espírito Santo. A depender do financiamento da pesquisa, o projeto poderia, no futuro, abranger pessoas de outros estados.

Silvana Santos não mora mais na região, mas continua visitando com frequência

A ideia é testar 400 genes responsáveis por doenças genéticas mais prevalentes na população brasileira.

O objetivo, segundo o grupo, não é tentar impedir casamentos entre primos, mas, sim, fornecer informações a casais sobre genética familiar e, assim, eles tomarem decisões: “É para que eles possam conhecer um pouco mais sobre a sua história”, resume Silvana.

No Brasil, há poucos lugares fora do eixo Rio-São Paulo em que as pessoas podem procurar serviços de aconselhamento genético. Uma lista da Sociedade Brasileira de Genética Médica indica os centros públicos especializados pelo país onde casais interessados podem buscar orientação.

Hoje professora na UEPB em João Pessoa, Silvana está à frente do Núcleo de Estudos em Genética e Educação (Nege) e segue se dedicando à ampliação dos serviços de mapeamento genético na região Nordeste.

A pesquisadora não vive mais na região de Serrinha dos Pintos e não frequenta as casas dos moradores com a recorrência de antes. Mas, cada vez que volta, é como se nunca tivesse partido.

“É como se Silvana fosse da nossa família”, diz dona Inês.

De certa forma, mesmo que não pela genética, a cidade ganhou, nesses últimos anos, uma nova prima.

Gráficos feitos por Caroline Souza, Equipe de Jornalismo Visual da BBC Brasil.

Lula enaltece trabalho com Tarcísio, mas diz que relação não é ‘casamento’ e governador brinca: ‘ainda bem’

O presidente Lula e o governador de SP Tarcísio de Freitas participaram nesta quinta-feira (27), em Santos, do lançamento do edital do Túnel Santos-Guarujá, obra com investimento estimado em R$ 6 bilhões.

O projeto da ligação seca prevê a construção de um túnel submerso com 870 metros de extensão, que atravessa o canal do Porto de Santos.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enalteceu o trabalho em conjunto com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), durante um discurso sobre união de esforços em prol da população feito nesta quinta-feira (27), em Santos (SP).

O petista, porém, brincou que a relação não representava um pedido de casamento. Nas imagens, captadas pela TV Tribuna, afiliada da Globo, é possível ver o governador respondendo em tom bem-humorado: “Ainda bem”.

O discurso foi feito durante o lançamento do edital do Túnel Santos-Guarujá no Parque Valongo, em Santos (SP). Lula citou a necessidade de compartilhar esforços para garantir melhorias à população.

“Não é possível a gente deixar de trabalhar, sabe, de forma conjunta, de compartilhar esforços, porque eu não gosto de fulano ou fulano não gosta de mim”, afirmou Lula. “Eu não estou propondo casamento para ele, nem ele está propondo para mim. O que estamos propondo é um jeito de trabalhar juntos”.

“Não é possível a gente deixar de trabalhar, sabe, de forma conjunta, de compartilhar esforços, porque eu não gosto de fulano ou fulano não gosta de mim”, afirmou Lula. “Eu não estou propondo casamento para ele, nem ele está propondo para mim. O que estamos propondo é um jeito de trabalhar juntos”.

Troca de elogios

Ex-ministro do governo Bolsonaro (PL), o governador foi o primeiro a se manifestar e, durante o discurso, teceu elogios a Lula pelo compromisso com o andamento do processo que resultará na construção do túnel submerso.

“Desde o início a gente (Tarcísio e Lula) teve as conversas sobre o túnel. O senhor colocou isso tudo com prioridade”. O governador ainda citou uma frase que ouviu do presidente: “Não tá na hora de ter disputa política, nós temos que atender o cidadão. E é o que nós estamos fazendo no dia de hoje aqui, atendendo o cidadão”.

O presidente assumiu o microfone em seguida e ressaltou que a boa relação se faz necessária para que projetos andem e a população seja atendida. “Não é possível a gente deixar de trabalhar de forma conjunta, de compartilhar esforço, porque eu não gosto de fulano, o fulano não gosta de mim”.

“Quando você tem vontade política, você consegue fazer as coisas”, disse Lula, ressaltando que tanto ele quanto o governador têm tido bom entendimento para avançar em obras que vão contribuir com o desenvolvimento do estado e país.

Sobre o túnel

O projeto da ligação seca prevê um túnel submerso de 870 metros, oferecendo uma alternativa rápida de 1,5 minuto entre Santos e Guarujá. Atualmente, os usuários têm duas opções: a Rodovia Cônego Domênico Rangoni, com 40 km e 50 minutos de viagem, ou a balsa, que leva de 20 minutos a 2 horas, dependendo do tráfego, movimentação no porto e condições climáticas.

Segundo o Governo do Estado, a média diária de pessoas que atravessam os municípios por meio de balsas atualmente é de 78 mil, com mais de 20 mil veículos.

O tempo estimado para a travessia de veículos pelo túnel submerso será de pouco mais de um minuto e meio. A previsão é que aproximadamente 150 mil passem pelo local diariamente.

O trecho vai ligar o cais do Outeirinhos, no bairro Macuco, em Santos, ao distrito Vicente de Carvalho, em Guarujá. Além da passagem de veículos, o túnel contará com uma área de circulação para ciclistas e pedestres. Serão seis vias de pista – três faixas por sentido, sendo uma delas adaptável ao Veículo Leve sobre Trilhos (VLT).

Os estudos referentes ao projeto estão disponíveis para consulta aos interessados no site da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), por meio do processo 195/2024.

Os próximos passos

O consultor portuário Ivam Jardim explicou que as etapas seguintes à publicação do edital geralmente incluem: esclarecimentos, entrega e análise das propostas, julgamento, leilão, homologação, adjudicação, assinatura do contrato e ordem de serviço.

“O edital representa apenas a fase inicial do processo. Ainda há um caminho longo a percorrer, incluindo consultas públicas, ajustes e a definição de detalhes contratuais”, disse o consultor.

“O edital representa apenas a fase inicial do processo. Ainda há um caminho longo a percorrer, incluindo consultas públicas, ajustes e a definição de detalhes contratuais”, disse o consultor.

Jardim ressaltou que só a partir da publicação do edital o rito de execução da obra será definido. “É importante destacar que grandes projetos de infraestrutura demandam tempo para que todas as etapas sejam cumpridas com transparência e segurança jurídica. O início efetivo da construção dependerá da finalização desses trâmites”.

As etapas

Publicação do Edital: Esta fase envolve a divulgação oficial do edital de licitação, contendo todas as informações e requisitos para os interessados em participar do processo.

Esclarecimentos: Mesmo antes da publicação do edital, o projeto já passou por consulta pública, onde interessados puderam analisa os documentos e tirar dúvidas. Agora, portanto, o caso segue para a fase de esclarecimentos sobre o documento e a licitação.

Entrega das propostas: Os participantes deverão elaborar e submeter suas propostas dentro do prazo determinado no edital, cumprindo todos os requisitos técnicos, financeiros e jurídicos exigidos.

Análise e Julgamento das propostas: As propostas serão avaliadas com base nos critérios do edital, sendo o principal o maior desconto sobre o valor máximo pago pelo governo, para garantir maior eficiência e benefício à população.

Leilão: Ocorrerá em sessão pública, onde as propostas serão apresentadas e a vencedora será anunciada.

Homologação e adjudicação: Após a conclusão do leilão, o resultado será homologado e o contrato será formalmente atribuído à empresa vencedora, tornando-a responsável pela execução do projeto.

Assinatura do contrato e Ordem de serviço: A etapa final envolve a assinatura do contrato de concessão entre o poder concedente e a empresa vencedora, seguida da emissão da ordem de serviço, que autoriza o início das obras.

VÍDEOS: g1 em 1 Minuto Santos

Túnel no mar entre Santos e Guarujá: veja as etapas do lançamento do edital ao início das obras

O presidente Lula participa nesta quinta-feira (27), em Santos, do lançamento do edital do Túnel Santos-Guarujá, obra com investimento estimado em R$ 6 bilhões.

O projeto da ligação seca prevê a construção de um túnel submerso com 870 metros de extensão, que atravessa o canal do Porto de Santos.

Atualmente, os usuários podem optar pela Rodovia Cônego Domênico Rangoni, com 40 km e 50 minutos de percurso, ou pela travessia marítima de balsa, que leva de 20 minutos a 2 horas.

O tempo estimado para a travessia de veículos pelo túnel submerso será de pouco mais de um minuto e meio. A previsão é que aproximadamente 150 mil passem pelo local diariamente.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), vão lançar o edital do Túnel Santos-Guarujá nesta quarta-feira (27), em Santos, no litoral paulista. Em entrevista ao g1, um consultor portuário explica o significado deste momento e detalha os próximos passos rumo à construção da obra, com investimento estimado em R$ 6 bilhões.

O projeto da ligação seca prevê um túnel submerso de 870 metros, oferecendo uma alternativa rápida de 1,5 minuto entre Santos e Guarujá. Atualmente, os usuários têm duas opções: a Rodovia Cônego Domênico Rangoni, com 40 km e 50 minutos de viagem, ou a balsa, que leva de 20 minutos a 2 horas, dependendo do tráfego, movimentação no porto e condições climáticas.

Os próximos passos

O consultor portuário Ivam Jardim explicou que as etapas seguintes à publicação do edital geralmente incluem: consulta pública e esclarecimentos, entrega e análise das propostas, julgamento, leilão, homologação, adjudicação, assinatura do contrato e ordem de serviço.

No entanto, Jardim ressaltou que, embora esse seja o processo padrão, alguns desses itens podem não estar presentes no edital, que define as regras da concorrência.

“O edital representa apenas a fase inicial do processo. Ainda há um caminho longo a percorrer, incluindo consultas públicas, ajustes e a definição de detalhes contratuais”, disse o consultor.

“O edital representa apenas a fase inicial do processo. Ainda há um caminho longo a percorrer, incluindo consultas públicas, ajustes e a definição de detalhes contratuais”, disse o consultor.

Jardim ressaltou que só a partir da publicação do edital o rito de execução da obra será definido. “É importante destacar que grandes projetos de infraestrutura demandam tempo para que todas as etapas sejam cumpridas com transparência e segurança jurídica. O início efetivo da construção dependerá da finalização desses trâmites”.

As etapas

Publicação do Edital: Esta fase envolve a divulgação oficial do edital de licitação, contendo todas as informações e requisitos para os interessados em participar do processo.

Consulta Pública e esclarecimentos: Após a publicação do edital, haverá um período de consulta pública, onde os interessados poderão analisar os documentos, tirar dúvidas e solicitar esclarecimentos sobre o projeto e a licitação.

Entrega das propostas: Os participantes deverão elaborar e submeter suas propostas dentro do prazo determinado no edital, cumprindo todos os requisitos técnicos, financeiros e jurídicos exigidos.

Análise e Julgamento das propostas: As propostas serão avaliadas com base nos critérios do edital, sendo o principal o maior desconto sobre o valor máximo pago pelo governo, para garantir maior eficiência e benefício à população.

Leilão: Ocorrerá em sessão pública, onde as propostas serão apresentadas e a vencedora será anunciada.

Homologação e adjudicação: Após a conclusão do leilão, o resultado será homologado e o contrato será formalmente atribuído à empresa vencedora, tornando-a responsável pela execução do projeto.

Assinatura do contrato e Ordem de serviço: A etapa final envolve a assinatura do contrato de concessão entre o poder concedente e a empresa vencedora, seguida da emissão da ordem de serviço, que autoriza o início das obras.

Lula explica acordo com Tarcísio

Em entrevista exclusiva à equipe de reportagem, antes do lançamento do edital, Lula citou como foi costurado o acordo com Tarcísio para que o estado assumisse o edital. Segundo ele, “a obrigação de um Presidente da República não é entrar em queda de braço com governadores, mas sim criar as condições para um bom aperto de mãos”.

“Na minha relação com o governador Tarcísio, esse trabalho conjunto tem sido feito. O túnel Santos-Guarujá é uma obra esperada há quase um século pela população, e está saindo do papel agora porque chegamos a uma boa fórmula”, apontou o presidente.

Lula reforçou que o Governo Federal e o Governo de São Paulo vão dividir em partes iguais o valor necessário para viabilizar a parceria público-privada (PPP) responsável pela construção, que custará R$ 5,8 bilhões. “O resultado disso não será uma disputa de paternidade da obra, mas sim a entrega de um benefício concreto para a população”.

Governador garante obra

Na última visita a Santos, Tarcísio garantiu que o projeto finalmente vai sair do papel. “Não vai esperar mais 100 anos. Essa espera vai acabar agora”.

O governador explicou que o acordo para o estado assumir o edital foi feito após um encontro com Lula no início do mês em Brasília. “Colocamos os argumentos [do] por que a gente operacionalizando o edital por aqui sairia mais rápido”, disse Tarcísio. “É algo transformador para a Baixada Santista”.

Sobre o túnel

Segundo o Governo do Estado, a média diária de pessoas que atravessam os municípios por meio de balsas atualmente é de 78 mil, com mais de 20 mil veículos.

O tempo estimado para a travessia de veículos pelo túnel submerso será de pouco mais de um minuto e meio. A previsão é que aproximadamente 150 mil passem pelo local diariamente.

O trecho vai ligar o cais do Outeirinhos, no bairro Macuco, em Santos, ao distrito Vicente de Carvalho, em Guarujá. Além da passagem de veículos, o túnel contará com uma área de circulação para ciclistas e pedestres. Serão seis vias de pista – três faixas por sentido, sendo uma delas adaptável ao Veículo Leve sobre Trilhos (VLT).

Os estudos referentes ao projeto estão disponíveis para consulta aos interessados no site da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), por meio do processo 195/2024.

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